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 Visão Externa

Os técnicos do setor elétrico costumam lembrar que uma pessoa do início do século passado se maravilharia com os avanços obtidos na telefonia, com as tecnologias atuais de celulares. No entanto, a mesma pessoa não veria tamanha diferença em um sistema elétrico. Os sistemas elétricos estão longe de alcançar o desenvolvimento da telefonia. Ou estavam, até o momento. Desde a década de 80, os projetos de smart grids vêm surgindo em diferentes pontos do globo, em um processo gradual de disseminação e implementação, respondendo às necessidade de modernização dos sistemas elétricos.

Além da possibilidade de modernização, as smart grids estão se consolidando como um instrumento eficaz para obter uma maior eficiência no consumo de energia elétrica, permitir uma disseminação da geração com fontes renováveis e por permitir aos países, em particular os mais desenvolvidos, a cumprir metas associadas ao desenvolvimento sustentável. Na Europa, em especial, os projetos relacionados à conversão da rede pan-europeia para o conceito smart, tem como foco principal contribuir para que os países alcancem metas de redução de emissão de gases causadores do efeito estufa, compromissadas para 2020.

Os cálculos de especialistas indicam que os esforços para a implementação de redes inteligentes de energia ao redor do mundo deverão atingir cerca de US$ 200 bilhões no período entre 2008 e 2015. Em um horizonte de mais longo prazo (2025) esses investimentos devem alcançar algo próximo a US$ 380 bilhões. Esses aportes e as respectivas políticas destinadas à implementação de smart grids deverão concentrar-se em 10 países: China, Estados Unidos, Índia, França, Alemanha, Brasil, Espanha, Reino Unido, Japão e Coréia do Sul.

Os norte-americanos deverão responder pelos maiores aportes no curto prazo. Mas são os chineses que lideram mundialmente as iniciativas com o objetivo de tornar a sua imensa malha de transmissão e distribuição dotada de tecnologia smart. A expectativa é a de que a China implemente esta inteligência em um total de 360 milhões de metros de rede até 2030.

O acelerado crescimento da economia chinesa impõe como desafio ao país prover a infraestrutura necessária para oferecer energia aos diferentes segmentos de sua atividade econômica. A expectativa é de que a produção de energia apresente um crescimento de cerca de 8,5% por ano no período entre 2011 e 2015. Para suprir às necessidades, o governo chinês anunciou que ampliará os investimentos anuais no período de 2011 a 2015 de um total de US$ 22,3 bilhões para US$ 61,4 bilhões – o que representa um crescimento anual de 29,1% no período. Nesta fase, a expectativa do governo chinês é a de que seja disponibilizada uma malha nacional confiável, com suporte de sistemas inteligentes de gerenciamento de rede e de uma pulverizada distribuição de medidores eletrônicos.

Esse processo de transformação será finalizado em uma fase posterior, entre 2016 e 2020, quando todo o parque gerador chinês, incluindo as usinas termelétricas a carvão, centrais nucleares, usinas hidrelétricas e eólicas serão integradas à rede.

Já nos Estados Unidos, de acordo com levantamento da empresa de consultoria The Brattle Group, os investimentos para dotar o sistema elétrico da infraestrutura necessária para dar conta do crescimento de uma economia cada vez mais digitalizada, seja transformando a rede numa smart grid ou não, serão da ordem de US$ 1,5 trilhão no período entre 2010 e 2030. Diferentemente do que ocorre na China e em outros países, os projetos de smart grids em desenvolvimento nos Estados Unidos são realizados pelas próprias concessionárias.

Por lá, os projetos de implantação de smart grids obedecem a várias demandas associadas: necessidade de modernização do centenário sistema elétrico do país; obtenção de maior eficiência no uso da energia elétrica; e redução das emissões de poluentes causadores do efeito estufa.

As motivações originadas na questão ambiental também são bastante relevantes. Os Estados Unidos respondem por apenas 4% da população mundial, mas é responsável pela produção de 25% dos gases de efeito estufa. Metade da eletricidade do país é produzida por meio da queima de carvão, que contribui significativamente para o aquecimento global ao responder por 40% das suas emissões totais de dióxido de carbono – o dobro do produzido pelo sistema de transportes. Para resolver essa questão, é necessário que fontes renováveis de energia, como solar, eólica e geotérmica, sejam integradas à rede elétrica do país. A expectativa é a de que as smart grids enderecem essa questão, permitindo uma integração eficiente de novas fontes de energia na rede.

Na Europa, a implementação do conceito de smart grid vem sendo realizada mais recentemente, dando sequência a um processo de integração crescente e robusto dos sistemas elétricos do continente.

O processo de integração energética antecedeu, em muito a integração dos países europeus em um bloco econômico no continente. A ideia de um sistema de transmissão de eletricidade pan-europeu foi discutida, pela primeira vez, nos anos 20 do século passado. Mas a integração efetiva dos sistemas elétricos dos países europeus somente começou a destravar em 1951. Além de ter sido postergada por conta da Segunda Grande Guerra, a integração energética europeia sofreu limitações desde o início por conta tanto do elevado custo dos projetos, quanto em função da Guerra Fria, que rachou o continente em duas Europas: a do Leste, comunista, e a do Oeste, capitalista. Com a queda da Cortina de Ferro no final dos anos 80, o processo foi retomado, culminando com a criação, em 2008, da European Network of Transmission System Operators for Electricity (ENTSO-E). Reuniram-se sob a égide da nova entidade 41 sistemas operadores de 34 países.

A implementação de tecnologias de redes inteligentes no sistema elétrico pan-europeu vem sendo realizada de forma ordenada com os compromissos firmados pela Comunidade Europeia visando a adequação às regras estritas contidas no Protocolo de Kyoto. Segundo a ENTSO-E, serão necessários 42.100 quilômetros de novas linhas de transmissão de alta tensão nos próximos anos, a serem agregadas aos 300 mil quilômetros de malha conjunta existentes. Esse esforço irá demandar investimentos estimados em 28 bilhões de euros somente no período entre 2010 e 2015.

A Comunidade Europeia espera que cada residência do continente possa contar com medidores inteligentes até 2022. A previsão também é de que as tecnologias incorporadas ao sistema permitam, no mesmo prazo, a distribuição de um volume de energia de fontes renováveis equivalente a 35% do total.

Entre os países emergentes, Índia e Brasil também alimentam expectativas ambiciosas em relação à instalação de smart grids – o primeiro, com planos de implementação de inteligência em 130 milhões de metros até 2021; e o segundo, em 63 milhões de metros.

A Índia está começando sua jornada. Em 2010, o país iniciou um pequeno projeto piloto em Bangalore, apoiado por financiamento norte-americano. Embora os princípios que regem a implementação dos smart grids nos outros países também sejam considerados, o projeto conta com outro fator motivador de grande importância: o fato de que apenas a metade da energia elétrica consumida na Índia seja faturada, segundo informações do governo do país. As perdas técnicas e comerciais no país proporcionam um impacto estimado em algo em torno de 1,5% do PIB. Além das perdas, outras vulnerabilidades do sistema elétrico na Índia são consideradas motivadores para transformações substanciais. O aquecimento da economia indiana tem provocado frequentes desligamentos e uma boa parcela da população rural não tem acesso à energia elétrica, por exemplo.